Dia dos Surdos propõe reflexões sobre acessibilidade e garantia do direito à cidadania
Setembro marca em todo o mundo, e em especial no Brasil, o período de reflexão e reconhecimento da importância do ensino voltado aos surdos e à cultura surda em geral. Ao mesmo tempo em que no final do mês é celebrado o Dia Mundial dos Surdos, no Brasil, 26 de setembro marca o Dia Nacional dos Surdos. A data relaciona-se com a fundação do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), entidade centenária sediada no Rio de Janeiro que introduziu a educação de surdos no país e cuja história relaciona-se com a história da própria Língua Brasileira de Sinais (Libras).
Desde a criação do Instituto, em 1857, até a oficialização de Libras em 2002 como meio legal de comunicação e expressão, o sistema linguístico de natureza visual-motora é referência e identifica-se com a cultura e a educação de surdos.
"Fico admirada quando olho para as minhas mãos e vejo que através delas posso me comunicar. Esse movimento é uma língua. Que só existe porque tem seres humanos que a falam. É a minha língua natural. Que expressa sentimentos, alegrias, tristezas, confiança, competência e é valorizada. Tenho orgulho de ser surda", afirma Keli Krause, professora de Libras da Unipampa que nasceu surda.
O ensino da Língua de Sinais na Unipampa
A Universidade Federal do Pampa (Unipampa) possui dez docentes surdos – um em cada campus – que ministram a disciplina da Língua Brasileira de Sinais (Libras) e envolvem-se nos mais diversos projetos relacionados à língua e à surdez. A Libras está presente como componente curricular em 17 licenciaturas, 36 bacharelados e cinco tecnólogos dos 63 cursos de graduação da Universidade.
A pró-reitora adjunta de Graduação e coordenadora do Núcleo de Inclusão e Acessibilidade (Nina), professora Francéli Brizolla, destaca que em termos da presença de Libras na organização curricular da Unipampa, em cumprimento ao ordenamento legal vigente [Decretos nº 5.296/2004 e nº 5.626/2005], há uma orientação institucional da Pró-Reitoria de Graduação (Prograd), por meio da Coordenadoria do Ensino de Graduação (Coordeg), que recomenda uma ementa-padrão para a componente curricular, construída pelos próprios docentes surdos. "Ainda, a Prograd tem apontado, em toda análise de PPC, a inclusão da componente, seja como obrigatória ou complementar, nos currículos dos cursos de graduação", explica.
Uma das docentes surdas que ministra a disciplina de Libras é Keli Krause, que ingressou na Unipampa, Campus São Borja, por meio de concurso público em novembro de 2013. Keli relembra seu início na instituição: “Quando cheguei para a primeira aula de Libras, a turma ficou ansiosa e nervosa. Todos os alunos olharam bem para mim e prestaram atenção na língua de sinais e, aos poucos, ficaram aliviados, pois conseguiram entender o que eu falei na aula”.
Para os alunos, a Libras passou a ser mais uma forma de comunicação, que os auxiliará no desempenho de suas atividades profissionais futuras. Outras ferramentas também facilitam o processo de comunicação entre surdos e ouvintes, tais como a escrita e o uso da tecnologia como, por exemplo, e-mail, Skype e G-Talk, afirma a docente.
Alunos dos cursos de Jornalismo e Serviço Social apresentam o cartaz com uma reflexão sobre a educação de surdos / Foto: Keli Krause
Projetos voltados à cultura surda ultrapassam os muros da Universidade
Além das atividades de ensino, os docentes desenvolvem ações e/ou projetos de extensão na área da educação e da surdez, de maneira mais ampla. Palestras sobre educação de surdos, fóruns e seminários são realizados visando socializar conhecimentos com a comunidade acadêmica e com a sociedade em geral sobre os principais aspectos dessa cultura.
Em São Borja, a professora Keli Krause é a idealizadora do projeto de ensino Talk em Libras, que tem entre seus objetivos melhorar a proficiência dos universitários na Língua Brasileira de Sinais, através de encontros descontraídos, onde são tratados temas atuais. “É importante estimular o aprendizado da Língua [de Sinais] e da cultura, partindo da motivação e do interesse que os jovens têm pelo aprendizado e prática de novas línguas e também de temas diversos”, enfatiza.
Neste mês, entre os dias 21 e 23, a Unipampa, Campus São Borja, realizou a 1ª Semana de Surdos: cidadania em prática, que discutiu educação inclusiva, família e mercado de trabalho para cidadão surdo, entre outros assuntos.
Além das ações citadas, conforme o Nina, os docentes surdos foram orientados pela Prograd, em parceria com o Nudepe, quanto à oferta de Cursos de Libras para a comunidade externa [extensão] e, principalmente, para os servidores da Universidade, nos níveis básico, intermediário e avançado. Com a presença desses profissionais, estão sendo ofertados cursos em fluxo contínuo nos dez campi e reitoria, com periodicidade semestral. Em 2015, nove professores inscreveram seus projetos de Curso de Libras via Nudepe. Em Alegrete, Bagé, Caçapava do Sul, Dom Pedrito, São Borja, São Gabriel e Uruguaiana estão ocorrendo cursos de nível básico e em Caçapava do Sul, Santana do Livramento e São Borja, ocorrem os cursos de nível intermediário.
A aprendizagem de deficientes auditivos aliada à técnica da leitura labial
Além dos professores surdos, a Unipampa conta com 24 discentes que se identificaram em seus cadastros como deficientes auditivos, presentes em cursos de graduação e pós-graduação em oito dos dez campi da Universidade.
Isabel Cristina Motta da Silva, 25 anos, cursa o oitavo semestre de Publicidade e Propaganda na Unipampa. Aos 11 anos, após uma grave otite, perdeu parte significativa da audição. Em 2005, Isabel passou a usar aparelho auditivo e precisou de um tempo para adaptação.
Quando ingressou na Universidade, Isabel conta que tinha vergonha de interromper a aula para perguntar quando não ouvia, porém, hoje está mais desinibida e afirma que não leva dúvida para casa. “Aprendi a fazer leitura labial e, assim, consigo ouvir melhor, pois o aparelho não é 100% sempre. Minha audição é muito falha”.
O papel do tradutor e intérprete de Libras
Em alguns momentos, a falta da oralidade e o desconhecimento da Língua de Sinais pode dificultar a comunicação entre surdos e ouvintes. Para permitir o acesso e, também, a aprendizagem do surdo em todas as ações de ensino e eventos acadêmicos ou, ainda, para mediar o diálogo entre ouvintes e a comunidade surda há o trabalho do tradutor e intérprete de Libras. A Unipampa possui quatro servidores que desempenham esta função nos campi Alegrete, Bagé e Santana do Livramento, bem como na Pró-Reitoria de Graduação (Prograd).
Conforme explica a professora Francéli Brizolla, mesmo tendo sido realizados dois concursos públicos para preenchimento de vagas de Intérpretes nos campi, em razão da mobilidade desses técnicos da Unipampa para outras instituições, alguns campi não contam com esse profissional, no momento.
A fim de minimizar a ausência de Intérpretes nos campi, a Prograd, em parceria com o Nina, lançou um Edital para Bolsas de Mediação da Comunicação para os campi que ainda não contam com esse servidor. O principal objetivo do edital é mediar a comunicação entre surdos e ouvintes, facilitando o trabalho e as relações interpessoais. "Como se trata de uma alternativa de curto prazo, ainda que importante, um novo concurso público está em planejamento para a ocupação das vagas existentes, ainda em 2015", destaca.
Camila Rossi, acadêmica de Jornalismo, foi uma das bolsistas selecionadas. A estudante afirma que passou a ter interesse em Libras a partir da disciplina. “Comecei a estudar e vi a Libras como uma alternativa de comunicação. Há toda uma questão de adaptação da língua falada e escrita para a Libras”. Camila explica que a Libras não é apenas uma tradução do português para o gestual, trata-se de uma língua que possui gramática própria. “É um desafio, pois tu vais ter que aprender duas coisas ao mesmo tempo. Conseguir passar para o surdo aquilo que tu queres comunicar, adaptando para a Libras”, conclui.
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